terça-feira, 18 de setembro de 2007

INTRODUÇÃO

Atualmente, uma das preocupações centrais das pessoas, instituições e países, refere-se ao problema da violência. As dramáticas cifras mostram não só o número alarmante de homicídios, suicídios e conflitos armados, como também refletem outros tipos de violência como maus-tratos físicos, sexuais e psicológicos, que não levam à morte, mas causam sérios danos à saúde e ao bem-estar de milhões de pessoas. Para a Organização Mundial de Saúde (OMS, 2002) a violência se converteu num dos principais problemas de saúde pública em todo o mundo.

O fenômeno da violência é altamente complexo e multifacetado. Definir de maneira clara as diferentes formas de violência, bem como os fatores de risco e suas conseqüências configura-se como um dos principais desafios das sociedades atuais. O paradigma de responder a violência com mais violência começa a perder o sentido a partir da constatação de que as raízes da violência não são somente raízes objetivas (pobreza, exclusão, injustiça e corrupção) mas também raízes subjetivas (ódios, rancores e desejos de vingança acumulados).

Os estudos mostram que o maior número de violência ocorre dentro das relações interpessoais e dentre as inúmeras causas destacam-se principalmente: a falta de controle das emoções, a impossibilidade de negociar conflitos e a inexistência de mediadores. Estranhamente isso é ignorado. Fortalece-se então, a idéia de que é necessário atender não só às necessidades externas de prevenção da violência, como torna-se fundamental dar uma resposta eficaz para as necessidades internas dos indivíduos no que se refere a processar construtivamente as raivas, os rancores e os desejos de vingança neles gerados.

Nesta perspectiva, se insere a proposta das Escolas de Perdão e Reconciliação – ESPERE - criadas em 2000 pelo Padre Leonel Narvaez, a partir de sua experiência no acompanhamento de tribos africanas nômades em conflito, bem como na área rural da Colômbia em processos de negociação com guerrilheiros.

Pe. Leoenel Narvaez é sociólogo, doutor pela Universidade de Cambridge, Diretor da Fundación para la Reconciliacón em Bogotá, assessor da Prefeitura e membro do Comitê temático de negociação com os guerrilheiros das FARC.

No Brasil teve-se conhecimento deste trabalho em 2001, desde então, desenvolve-se através da formação de multiplicadores no Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Salvador, Juiz de Fora e Santo amaro, estando localizada na Vice-reitoria Comunitária da PUC-Rio a coordenação nacional deste projeto.

DIMENSÃO ESPIRITUAL

PORQUE UMA DIMENSÃO ESPIRITUAL NAS ESPERE

P. Leonel Narváez

É importante esclarecer o que se entende hoje em dia por espiritualidade, sobretudo na perspectiva de trabalho com a comunidade e mais especificamente, com as organizações comunitárias de base.

A dimensão espiritual foi definida como o esforço intencional das organizações comunitária de base para recuperar e fortalecer os valores da convivência e a apropriação do espaço público como sagrado, com o fim de dinamizar os projetos de vida dos indivíduos e das comunidades. Por isso, faz-se necessário explicar o significado do espiritual.

“Espiritualidade” é uma palavra que teve um uso infeliz. Pra muitos, espiritualidade indica algo distante da vida real, inútil, cansativo e até talvez odioso. Assim pensam aqueles pessoas que legitimamente querem fugir de velhos e novos espiritualismos, e finalmente, de tudo aquilo que parecer ser contrário à vida real.

A palavra espiritualidade deriva de “espírito”. Na mentalidade mais comum, espírito se opõe à matéria. Os “espíritos” são seres não materiais, sem corpo, muito diferentes de nós. Nesse sentido, é espiritual o que não é material, o que não tem corpo. Diz-se de uma pessoa que é “espiritual” ou “muito espiritual” se ele vive em outro muito, sem se preocupar com o material, nem sequer com o seu próprio corpo e com o seu grupo social.

Estes conceitos limitados de espírito e espiritualidade como realidades opostas ao material e ao corporal provêm da cultura grega. Dela, passou-se à latina e daí à espanhola e a todas as demais línguas latinas e germânicas. Quase tudo que se pode chamar de “cultura ocidental” está contaminado deste conceito grego de espiritual. O mesmo não acontece, por exemplo, em nossas línguas indígenas autóctones, como o Paez, o Huitoto, o Coreguaje e tantas outras.

Tampouco no idioma ancestral da Bíblia, a língua hebraica, o mundo cultural semita entende dessa forma o espiritual. Para a Bíblia, o espírito não se opõe à matéria e nem ao corpo, e sim à maldade (destruição); opõe-se à carne, à morte (à fragilidade do que está destinado à morte); e opõe-se à lei (à imposição, ao medo, ao castigo)[1] Neste contexto semântico, espírito significa vida, construção, força, ação, liberdade. O espírito não é algo que está fora da matéria, fora do corpo ou fora da realidade; pelo contrário, é algo que está dentro, que habita a matéria e lha dá a vida; e enche de força, a move, a impulsiona, a lança ao crescimento e à criatividade com ímpeto de liberdade.

Em hebreu, a palavra espírito, ruah, significa vento, sopro, hálito. O espírito é como o vento, ligeiro, potente, intenso, imprevisível. É como o sopro, o vento corporal que faz com que a pessoa respire e se oxigene, que possa seguir raiva. É como o hálito da respiração; quem respira está vivo; quem não respira está morto.

O espírito não é outra vida senão o melhor da vida, o que a faz ser o que é, suprindo-a de qualidade e vigor, sustentando-a e impulsionando-a. Diremos então que algo é espiritual pela presença do espírito que tenha dentro de si.

O espírito como paixão e fogo

A partir do até aqui exposto, podemos aprofundar alguns conceitos. O espírito de uma pessoa é a parte mais profunda de seu próprio ser: suas “motivações” últimas, seu ideal, seu sonho, sua paixão, a mística pela qual vive e luta e com a qual contagia os demais. Dizemos, por exemplo, que uma pessoa “tem um bom espírito” quando é de bom coração, de boas intenções, com objetivos nobres, com veracidade. Dizemos que “tem um mau espírito” quando nela habitam más intenções, ou é dominada por paixões baixas ou quando algo nela nos faz sentir a desconfiança e a falsidade.

Diz-se também que uma pessoa “tem muito espírito” quando nela nota-se a presença e a força de motivações profundas, de uma paixão que a conduz, de um fogo que a coloca em ebulição, ou de uma riqueza interior que a faz transbordar. E dizemos, em caso contrário, que “não tem espírito” quando é vista sem ânimo, sem paixão, sem ideais; quando fecha-se em uma vida vazia e sem perspectivas. Mais de uma vez, utilizaremos em vez de espírito ou espiritualidade, certos sinônimos relativos (sentido, consciência, inspiração, vontade profunda, domínio de si, valores que guiam, utopia ou causa pelas quais se luta, caráter vital), para manter afastado ou restringido o conceito grego que lamentavelmente vem à nossa mente, uma vez ou outra.

O espírito (a espiritualidade) de um pessoa, comunidade ou moradores, é então um conceito muito mais amplo. Resumindo, é a motivação da vida, o caráter, a inspiração em qualquer atividade, as utopias e sonhos que as pessoas têm e as instituições. Não basta então que se alcance o desenvolvimento material e físico em um Bairro. Uma boa Organização comunitária de base se preocupa por fazer desenvolver este capital social na comunidade. Sem este capital social, a comunidade não pode realmente progredir.

A espiritualidade, patrimônio de todos os seres humanos

Toda pessoa está animada por um ou outro espírito, está marcada por uma ou outra espiritualidade, porque a pessoa é um ser fundamentalmente espiritual. Esta afirmação pode ser entendida e explicada de formas diversas, segundo as distintas crenças ou correntes antropológicas, filosóficas e religiosas.

Essa profundidade pessoal[2] (o fundamento, na linguagem dos místicos clássicos) vai sendo forjada pelas motivações que fazem a pessoa vibrar, pela utopia que a move e anima, pela compreensão da vida que essa pessoa vem construindo através da experiência pessoal, na convivência com seus semelhantes e com os outros seres, nas mística que essa pessoa define como base de sua definição individual e de sua orientação histórica.

Quanto mais conscientemente vive e age uma pessoa, quanto mais cultiva seus valores, seu ideal, sua mística, suas opções profundas, sua utopia, mais espiritualidade tem, mais profundo e mais rico é o seu interior.

A espiritualidade não é patrimônio exclusivo de pessoas especiais, profissionalmente religiosas, ou santos, nem sequer é privativa das pessoas que crêem. A espiritualidade é patrimônio de todos os seres humanos. Mais ainda: A espiritualidade é também uma realidade comunitária; é como a consciência e a motivação de um grupo, de uma comunidade. Cada comunidade tem sua cultura e cada cultura tem a sua espiritualidade.

Conclusão

Esta forma de ver a espiritualidade como entusiasmo interior e como motivações últimas de vida é a que permite se integrar dentre de um programa de desenvolvimento na cidade com motivações naturalmente civis. O objetivo definido pela dimensão espiritual do programa ESPERE busca contribuir para que os indivíduos e as organizações de bairros cultivem um capital espiritual e fortaleçam sua idéia de futuro, a visão de cidade e o entusiasmo para construir convivência e paz.

Neste esforço de convivência, os temas do Perdão e da Reconciliação têm um papel central e indispensável. Através do Perdão e da Reconciliação, as pessoas e as comunidades recuperam o espírito e a espiritualidade.





[1] COMBLIN, J. Antropologia cristiniana, Paulinas, Madrid 1985, pág. 264-270.

[2] Paul TILLICH, La dimensión não perdida, Desclée, Bilbao 1970, sobre la dimensión não antropológica de la “profundidade” y su significado religioso.