quarta-feira, 31 de outubro de 2007

O Perdão: porta para a paz mental

Existem muitas maneiras de definir o perdão, porque o perdão é muitas coisas ao mesmo tempo. É uma decisão, uma atitude, um processo e uma forma de vida. Algo que oferecemos a outras pessoas e algo que aceitamos para nós mesmos.

O perdão é uma decisão, a de ver além dos limites da personalidade de outra pessoa, de seus medos, idiossincrasias, neuroses e erros. A decisão de ver uma essência pura, não condicionada por histórias pessoais, que tem uma capacidade ilimitada e sempre é digna de respeito e amor. O perdão é a opção de “ver a luz da lâmpada e não a tela” escreveu o doutor Gerald Jampolsky, autor de muitos livros sobre o perdão. Em realidade, quando perdoamos é possível que vejamos a tela (identidades baseadas ou condicionadas pelo medo), mas a vemos no contexto da luz que ilumina o núcleo interior de cada um de nós.

O perdão é uma atitude, que pressupõe estar disposto a aceitar a responsabilidade das próprias percepções, compreendendo que são opções, não fatos objetivos.

O perdão é a atitude de optar por olhar para uma pessoa que talvez alguém tenha julgado automaticamente e perceber que na realidade, é algo mais que a pessoa “terrível” ou insensível que vemos. Se alguém nos repreende ou nos falta ao respeito, a reação condicionada poderia se sentir ferido, ameaçado e furioso: “Como pode fazer isso comigo?. Ou: “Como se atreve a falar assim comigo?”. São reações naturais.

Uma conseqüência de compreender que as percepções são uma opção é que ao mudar as percepções, também mudam as reações emotivas. No lugar do homem furioso que você viu te atacar faz cinco minutos, poderá ver agora um pequeno garoto frustrado e assustado. Freqüentemente, é o garoto interior ferido ou assustado da outra pessoa o responsável pela sua falta de delicadeza ou de critério maduro. Quando somos adultos, esse garoto interior ferido vive dentro de nós, caso no decorrer de nossa infância tenha se nos negado o amor, a compreensão e o consolo de que precisávamos. O garoto ferido continua sendo uma força impulsionadora na psique do adulto, até que seja reconhecido e depois curado. O perdão nos capacita a perceber, sob esse comportamento insensível, esse garoto ferido, os condicionamentos passados e o grito pedindo ajuda, amor e respeito.

O perdão é um processo, que exige que mudemos nossas percepções uma vez ou outra. Não é algo que aconteça de uma vez por todas. Nossa visão habitual está obscurecida pelos juízos e percepções do passado projetados no presente. Nisto, as aparências nos enganam com facilidade. Quando optamos por mudar nossa perspectiva por uma visão mais profunda, mais ampla e abrangente, podemos reconhecer e afirmar a maior verdade a respeito de quem somos nós e quem são os demais. Como resultado desta mudança, surgem de um modo natural uma maior compreensão e compaixão por nós mesmos e pelos demais. Cada vez que fazemos esta mudança, debilitamos o monopólio do ego sobre nossas percepções e nos capacitamos para deixar seguir, libertar e esquecer o passado. O perdão costuma ser experimentado como um sentimento de otimismo, paz, amor e abertura do coração, alívio, expansão, confiança, liberdade, alegria e uma sensação de estar fazendo o correto.

O perdão é uma forma de vida que nos converte gradualmente de vítimas de nossas circunstâncias em poderosos e amorosos co-criadores de nossa realidade. Enquanto forma de vida, pressupõe o compromisso de experimentar cada momento livre de percepções passadas, de ver cada instante como algo novo, com clareza e sem temor. É o desaparecimento das percepções que dificultavam nossa capacidade de amar.

Existem muitas pessoas que quando pensam no perdão, acham que é algo que se faz de situação em situação, de raiva em raiva. Se bem que em última instância, seja essencial perdoar a cada situação específica se é que queremos ser livres, curar e ser capazes de avançar, em seu sentido mais amplo é uma maneira de nos relacionar que está sempre presente: clara, piedosa e compreensiva. O perdão nos ensina que podemos estar firmemente em desacordo com alguém, sem precisar por isso de esquecer o nosso carinho. Leva-nos mais além dos temores e mecanismos de sobrevivência próprios de nosso condicionamento, em direção a uma visão corajosa de verdade, oferecendo-nos um novo campo de escolha e liberdade, no qual podemos descansar de nossas batalhas. Guia-nos para onde a paz não é desconhecida. Nos dá a possibilidade de saber qual é nossa verdadeira força.

A idéia de considerar toda manifestação de raiva como um pedido de reconhecimento, respeito, ajuda e amor pode ser um desvio radical em relação à maneira como aprendemos a perceber a raiva e reagir diante dela.

O perdão não está no que “fazemos” e sim na maneira como “percebemos” as pessoas e as circunstância. É um modo diferente de olhar o que está se fazendo e o que foi feito. Independentemente do que cada um escolha fazer, o fato de considerar nossa conduta como um expressão de temor e uma petição de amor e respeito, nos permite adotar uma atitude que não contribua a aumentar o temor e, em conseqüência, que seja mais provável uma resposta verdadeiramente útil. O perdão é definitivamente uma opção sensata e conveniente.

Às vezes tomam-se decisões em nome do perdão quando não se perdoa de fato. É importante não confundir perdoar com negar os próprios sentimentos, necessidades e desejos. Perdoar não significa ser passivo e manter um trabalho ou uma relação que evidentemente não funciona ou nos faz mal. É importante ter bem claros os próprios limites. O que é aceitável para cada um?

Se estivermos dispostos a permitir repetidos comportamentos inaceitáveis em nome do “perdão”, o mais provável é que estejamos utilizando o “perdão” como pretexto para não assumir a responsabilidade de cuidar de nós mesmos ou para evitar fazer mudanças. Em uma situação de trabalho, por exemplo, o perdão não nos exime de resolver o que desejamos fazer, de enfrentar os problemas ou de procurar outro trabalho se o que temos nos faz infeliz. Freqüentemente, os limites entre perdoar e fugir são subjetivos; cada um tem que descobrir qual é qual para si mesmo, sendo totalmente honrado consigo mesmo.

Busca tua verdade em teus sentimentos mais instintivos e escuta o teu coração.

Perdoar-se a si mesmo: o desafio

Perdoar-se a si mesmo é provavelmente o maior desafio que podemos encontrar na vida. Em essência, é o processo de aprendermos a nos amar e aceitar a nós mesmos “aconteça o que acontecer”.

No entanto, existe uma enorme resistência e perdoar-se a si mesmo, já que, como qualquer outra mudança importante, é uma morte. Morre o hábito de nos considerarmos pequenos e indignos, morre a vergonha, a culpa e a autocrítica. “Estou envergonhado de ter engordado tanto”, “Sempre me sentirei culpado por não ter me despedido das pessoas”, “Deixarei de me sentir culpado se as coisas se resolverem”, “Perdoar-me-ei quando ela me perdoar”. Quantas vezes a disposição de nos amarmos e aceitarmos dependeu de que as circunstâncias fossem diferentes de como na realidade são? Que críticas de nós mesmos teremos que deixar de lado para que possamos nos perdoar?

O objetivo do perdão é lançar luz sobre os enganos, temores, julgamentos e críticas que nos vem mantendo presos, no papel de nosso próprio carcereiro. É descobrir a opção de renunciar a esse cruel trabalho, para poder assim nutrir toda a verdade a respeito de quem somos.

Perdoar-se a si mesmo é um fabuloso nascimento. É inerente aos momentos nos quais temos a experiência direta da compaixão, do amor e da glória de nosso EU superior, mais além de toda definição.

(Robin Casarjian)

Sobre o Perdão...

  • O perdão contém a promessa de liberdade, alívio e paz.
  • O perdão desperta a nossa bondade e o fato de que somos dignos de amor.
  • Permite descarregar a confusão emocional e seguir em frente, sentindo-se melhor consigo mesmo e com a vida.
  • O teólogo e filósofo Paul Tillich diz: “O perdão é uma resposta, a resposta implícita em nossa existência”. O perdão é o meio para reparar o que está quebrado. Pega nosso coração quebrado e o conserta. Pega nosso coração surpreendido e o libera. Pega nosso coração manchado pela vergonha e a culpa e o devolve a seu estado imaculado. O perdão restabelece em nosso coração a inocência que havíamos conhecido em outra época, uma inocência que é a liberdade de amar.
  • Perdoar não é justificar comportamentos negativos ou improcedentes, sejam próprios ou alheios. O perdão não quer dizer que se aprove ou se defenda a conduta que causou o sofrimento, nem tampouco exclui que se tomem medidas para mudar a situação ou proteger nossos direitos.
  • Perdoar não é adotar uma atitude superior. Caso se perdoe alguém por piedade ou por considerá-lo bobo ou estúpido, confunde-se o perdoar com a arrogância.
  • O perdão não exige comunicação verbal e direita com a pessoa à qual se perdoou. Não é preciso ir e dizer: “te perdôo”, ainda que, às vezes, isto possa ser uma parte importante do processo de perdoar. Com freqüência, a outra pessoa notará a mudança produzida em nós; o perdão é uma mudança interior que pode levar à reconciliação.

O perdão só requer uma mudança de percepção, outra maneira de considerar as pessoas e circunstância que acreditamos que nos tenham causado dor e problema.


“PERDOAR. Uma decisão valente que nos trará a paz”.

Robin Casarjian. - Ediciones Urano S.A. 1998.

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Diferentes maneiras de demonstrar a raiva

Cada um tem uma forma diferente de trabalhar a raiva. Vamos falar de oito delas

1. BOMBA ATÔMICA

Estas pessoas parecem estar o tempo todo com raiva. Qualquer coisa as incomoda. Ainda que seja sem querer, se sentem insultadas e são pessoas que se mostram muito iradas.

2. ESTÁTUA

Estas pessoas negam a raiva que sentem. Não demonstram o que sentem e por isso, parecem estátuas. Preferem ir embora e deixam as coisas como estão, sem solucioná-las; normalmente não querem mais falar com as pessoas que a ofenderam.

3. PANELA DE PRESSÃO

Essas pessoas guardam a raiva por muito tempo sem demonstrá-la. De repente, por qualquer motivo, explodem sem se importar nem com as pessoas nem com o lugar onde estão. Estas pessoas podem adoecer por guardar seus sentimentos.

4. MÁRTIR

Os mártires não demonstram a raiva claramente. Queixam-se de tudo o que acontece, para que os outros tenham atenção especial com ele, para que tenham pena deles e façam tudo o que eles querem.

5. PISTOLEIRO

Os pistoleiros rapidamente mostram sua raiva e rapidamente se esquecem dela. Eles se esquecem que com esse tipo de comportamento podem ferir muitíssimo as pessoas.

6. TRAMPOLIM

Quando se fala mal dessas pessoas, escondem a dor que sentem. No entanto, por vingança, fazem o mesmo com os outros. Devolvem todo o mal que lhes fazem.

7. CAMINHÃO DE LIXO

Esses transferem a raiva que tem de pessoas poderosas (chefe, padre), para as pessoas menos poderosas (como por exemplo, seus filhos). Quando a raiva é muito grande brigam com outras pessoas que não tem nada a ver com o fato.

8. BOMBEIRO

Essas pessoas controlam a raiva que sentem assim como os bombeiros controlam o fogo. Sabem que estas situações são naturais. Têm diferentes formas de enfrentar as brigas e, também, sabem que precisam de tempo para se acalmar, perceber e entender o que está acontecendo. Dessa forma encontram facilmente a solução dos problemas e não ficam brigados com as pessoas.

sábado, 6 de outubro de 2007

O que esperar das ESPERE

Por isso, com o método das ESPERE você poderá:

  • Encontrar a confiança necessária para compartilhar aspectos íntimos de sua vida. (Permissão)
  • Perceberá que, ao compartilhar esse aspecto da sua vida íntima, se sentirá muito melhor. (Proteção)
  • Perceberá que não está sozinho. Poderá ter relações de cooperação e de apoio mútuo. (Potência)


Este método também trabalha as quatro áreas do ser humano:

  • Sentir: falar o que se sente é muito importante para não adoecer ou fazer coisas que tragam arrependimento.
  • Pensar: você poderá dizer o que pensa e terá novas idéias para refletir.
  • Fazer: aqui aprenderá novas maneiras de atuar, buscando diminuir as agressões.
  • Transcender: se refere ao desejo de ser cada vez melhor.

Os conteúdos que você vai ter contato, neste processo de Perdão e Reconciliação, estão distribuidos em 10 módulos. Serão ministrados por equipes multidisciplinares em oficinas e técnicas sobre dinâmicas de grupo, considerando essas quatro dimensões: cognitiva, comportamental, emocional e transcendente.

Esta metodologia poderá ser modificada de acordo com as características dos diversos grupos, comunidades, empresas, escolas e outros, onde se estará aplicando o método.

O 3 "S"

OS TRÊS “S”

Quando se vive por uma situação de violência, sua vida é afetada em:

  • Segurança em si mesmo: uma pessoa maltratada ou agredida sofre graves lesões no que se entende como pessoa, levando-a a ter graves problemas de segurança, nos diferentes momentos e espaços da sua vida. Por exemplo: não pedir um favor por medo de que seja agredida ou não aceitar um trabalho por medo de que algo aconteça.

  • Significado da vida: quem sofreu uma ofensa perde o sentido e o significado da vida. Não se compreende bem o fazer e o transcender. A motivação para atuar diminui sensivelmente. Por exemplo: não saber o que se quer fazer na vida ou o não saber o motivo da sua existência.

  • Na sociabilidade: quando se é maltratado, o que se ganha é a desconfiança. A interação diária com os outros fica dificultada pela suspeita. O estar com os outros e o trabalho em equipe se complica. Por exemplo: não se tem amigos por se pensar que eles vão se aproveitar ou que riam de você quando contar algo ou que contem a todos os seus segredos.

Curiosidades - Você sabia?

VOCÊ SABIA?

- No ano 2000 morreram no mundo, por causas não naturais, 1,6 milhão de pessoas. Dessas mortes, metade foram suicídios, grande parte foram homicídios e em número menor foram por conflitos armados..

- A maior taxa mundial de homicídios corresponde a homens com idades entre os 15 e 29 anos.

- O índice de mortes, por causas não naturais, entre os jovens, na Região Oceânica (Niterói - RJ) cresce assustadoramente, chegando a média de 10 mortes a cada semana, em acidentes de moto, automóveis, atropelamentos e armas de fogo.

- Os maltratos físicos, sexuais e psicológicos não nos levam diretamente a morte, porém, afetam a saúde e ao bem estar de milhões de pessoas, que passam a apresentar doenças, elevando em muito as despesas do país.

- A violência social é uma conduta adquirida inicialmente no ambiente doméstico, através das condutas agressivas dos pais, dos maltratos às crianças e, em geral, dos comportamentos violentos usados pelos membros da família.

- Muitos suicidas cultivam a raiva e o ódio pela vida. O suicídio é uma forma de vingança contra a vida, contra si mesmo e contra a sociedade.

- Já ficou provado que os meninos e as meninas que ficam expostos à violência, como vítimas ou como testemunhas, tem maior probabilidade de repetir atitudes semelhantes, quando adulto.

- Não conseguir lidar com as emoções, principalmente com a raiva, ocorre quando não conhecemos mecanismos para transformar ódios, rancores e desejos de vingança. Essas são as causas mais comuns de todo tipo de violência.

Tipos de violências

Podemos classificar as violências como:

- Violência Física – toda ação intencional, freqüente ou não, exercida por uma pessoa mais velha que a vítima, que ocasione dano físico.

- Violência Psicológica – influência negativa de uma pessoa mais velha que venha a interferir no desenvolvimento da vítima.

a) Rejeição – quando não reconhecem em uma pessoa o valor, nem a legitimidade de suas necessidades;

b) Isolamento – o afastamento da pessoa de experiências sociais normais impedindo-a de ter amigos, fazendo-a crer que está só no mundo;

c) Aterrorizamento – agressões verbais à pessoa, instaurando um clima de terror fazendo-a crer que também o mundo é hostil a ela;

d) Abandono – não se estimula o crescimento emocional e intelectual da pessoa;

e) Cobrança – expectativas irreais ou extremadas exigências sobre o rendimento escolar, intelectual, esportivo, etc.;

f) Corrupção – corromper a pessoa à prostituição, ao crime, ao uso de drogas.

- Violência Sexual – toda ação ou “jogo” sexual envolvendo relações hetero ou homossexuais, cujo agressor tenha um amadurecimento psicossocial maior que a vítima, induzindo-a a satisfazer seu prazer, direta ou indiretamente.

- Negligência – quando pais ou responsáveis não satisfazem as necessidades de seus filhos, mesmo quando possuem condições de vida para tal.

(Texto retirado de: “Violência e Violências. Brasil e Brasília. O que fazer?”, Lia Zanotta Machado, “Marcas para sempre”, Revista “Isto é”, 19/04/04, “Violência contra Criança e Adolescentes”)

terça-feira, 18 de setembro de 2007

INTRODUÇÃO

Atualmente, uma das preocupações centrais das pessoas, instituições e países, refere-se ao problema da violência. As dramáticas cifras mostram não só o número alarmante de homicídios, suicídios e conflitos armados, como também refletem outros tipos de violência como maus-tratos físicos, sexuais e psicológicos, que não levam à morte, mas causam sérios danos à saúde e ao bem-estar de milhões de pessoas. Para a Organização Mundial de Saúde (OMS, 2002) a violência se converteu num dos principais problemas de saúde pública em todo o mundo.

O fenômeno da violência é altamente complexo e multifacetado. Definir de maneira clara as diferentes formas de violência, bem como os fatores de risco e suas conseqüências configura-se como um dos principais desafios das sociedades atuais. O paradigma de responder a violência com mais violência começa a perder o sentido a partir da constatação de que as raízes da violência não são somente raízes objetivas (pobreza, exclusão, injustiça e corrupção) mas também raízes subjetivas (ódios, rancores e desejos de vingança acumulados).

Os estudos mostram que o maior número de violência ocorre dentro das relações interpessoais e dentre as inúmeras causas destacam-se principalmente: a falta de controle das emoções, a impossibilidade de negociar conflitos e a inexistência de mediadores. Estranhamente isso é ignorado. Fortalece-se então, a idéia de que é necessário atender não só às necessidades externas de prevenção da violência, como torna-se fundamental dar uma resposta eficaz para as necessidades internas dos indivíduos no que se refere a processar construtivamente as raivas, os rancores e os desejos de vingança neles gerados.

Nesta perspectiva, se insere a proposta das Escolas de Perdão e Reconciliação – ESPERE - criadas em 2000 pelo Padre Leonel Narvaez, a partir de sua experiência no acompanhamento de tribos africanas nômades em conflito, bem como na área rural da Colômbia em processos de negociação com guerrilheiros.

Pe. Leoenel Narvaez é sociólogo, doutor pela Universidade de Cambridge, Diretor da Fundación para la Reconciliacón em Bogotá, assessor da Prefeitura e membro do Comitê temático de negociação com os guerrilheiros das FARC.

No Brasil teve-se conhecimento deste trabalho em 2001, desde então, desenvolve-se através da formação de multiplicadores no Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Salvador, Juiz de Fora e Santo amaro, estando localizada na Vice-reitoria Comunitária da PUC-Rio a coordenação nacional deste projeto.

DIMENSÃO ESPIRITUAL

PORQUE UMA DIMENSÃO ESPIRITUAL NAS ESPERE

P. Leonel Narváez

É importante esclarecer o que se entende hoje em dia por espiritualidade, sobretudo na perspectiva de trabalho com a comunidade e mais especificamente, com as organizações comunitárias de base.

A dimensão espiritual foi definida como o esforço intencional das organizações comunitária de base para recuperar e fortalecer os valores da convivência e a apropriação do espaço público como sagrado, com o fim de dinamizar os projetos de vida dos indivíduos e das comunidades. Por isso, faz-se necessário explicar o significado do espiritual.

“Espiritualidade” é uma palavra que teve um uso infeliz. Pra muitos, espiritualidade indica algo distante da vida real, inútil, cansativo e até talvez odioso. Assim pensam aqueles pessoas que legitimamente querem fugir de velhos e novos espiritualismos, e finalmente, de tudo aquilo que parecer ser contrário à vida real.

A palavra espiritualidade deriva de “espírito”. Na mentalidade mais comum, espírito se opõe à matéria. Os “espíritos” são seres não materiais, sem corpo, muito diferentes de nós. Nesse sentido, é espiritual o que não é material, o que não tem corpo. Diz-se de uma pessoa que é “espiritual” ou “muito espiritual” se ele vive em outro muito, sem se preocupar com o material, nem sequer com o seu próprio corpo e com o seu grupo social.

Estes conceitos limitados de espírito e espiritualidade como realidades opostas ao material e ao corporal provêm da cultura grega. Dela, passou-se à latina e daí à espanhola e a todas as demais línguas latinas e germânicas. Quase tudo que se pode chamar de “cultura ocidental” está contaminado deste conceito grego de espiritual. O mesmo não acontece, por exemplo, em nossas línguas indígenas autóctones, como o Paez, o Huitoto, o Coreguaje e tantas outras.

Tampouco no idioma ancestral da Bíblia, a língua hebraica, o mundo cultural semita entende dessa forma o espiritual. Para a Bíblia, o espírito não se opõe à matéria e nem ao corpo, e sim à maldade (destruição); opõe-se à carne, à morte (à fragilidade do que está destinado à morte); e opõe-se à lei (à imposição, ao medo, ao castigo)[1] Neste contexto semântico, espírito significa vida, construção, força, ação, liberdade. O espírito não é algo que está fora da matéria, fora do corpo ou fora da realidade; pelo contrário, é algo que está dentro, que habita a matéria e lha dá a vida; e enche de força, a move, a impulsiona, a lança ao crescimento e à criatividade com ímpeto de liberdade.

Em hebreu, a palavra espírito, ruah, significa vento, sopro, hálito. O espírito é como o vento, ligeiro, potente, intenso, imprevisível. É como o sopro, o vento corporal que faz com que a pessoa respire e se oxigene, que possa seguir raiva. É como o hálito da respiração; quem respira está vivo; quem não respira está morto.

O espírito não é outra vida senão o melhor da vida, o que a faz ser o que é, suprindo-a de qualidade e vigor, sustentando-a e impulsionando-a. Diremos então que algo é espiritual pela presença do espírito que tenha dentro de si.

O espírito como paixão e fogo

A partir do até aqui exposto, podemos aprofundar alguns conceitos. O espírito de uma pessoa é a parte mais profunda de seu próprio ser: suas “motivações” últimas, seu ideal, seu sonho, sua paixão, a mística pela qual vive e luta e com a qual contagia os demais. Dizemos, por exemplo, que uma pessoa “tem um bom espírito” quando é de bom coração, de boas intenções, com objetivos nobres, com veracidade. Dizemos que “tem um mau espírito” quando nela habitam más intenções, ou é dominada por paixões baixas ou quando algo nela nos faz sentir a desconfiança e a falsidade.

Diz-se também que uma pessoa “tem muito espírito” quando nela nota-se a presença e a força de motivações profundas, de uma paixão que a conduz, de um fogo que a coloca em ebulição, ou de uma riqueza interior que a faz transbordar. E dizemos, em caso contrário, que “não tem espírito” quando é vista sem ânimo, sem paixão, sem ideais; quando fecha-se em uma vida vazia e sem perspectivas. Mais de uma vez, utilizaremos em vez de espírito ou espiritualidade, certos sinônimos relativos (sentido, consciência, inspiração, vontade profunda, domínio de si, valores que guiam, utopia ou causa pelas quais se luta, caráter vital), para manter afastado ou restringido o conceito grego que lamentavelmente vem à nossa mente, uma vez ou outra.

O espírito (a espiritualidade) de um pessoa, comunidade ou moradores, é então um conceito muito mais amplo. Resumindo, é a motivação da vida, o caráter, a inspiração em qualquer atividade, as utopias e sonhos que as pessoas têm e as instituições. Não basta então que se alcance o desenvolvimento material e físico em um Bairro. Uma boa Organização comunitária de base se preocupa por fazer desenvolver este capital social na comunidade. Sem este capital social, a comunidade não pode realmente progredir.

A espiritualidade, patrimônio de todos os seres humanos

Toda pessoa está animada por um ou outro espírito, está marcada por uma ou outra espiritualidade, porque a pessoa é um ser fundamentalmente espiritual. Esta afirmação pode ser entendida e explicada de formas diversas, segundo as distintas crenças ou correntes antropológicas, filosóficas e religiosas.

Essa profundidade pessoal[2] (o fundamento, na linguagem dos místicos clássicos) vai sendo forjada pelas motivações que fazem a pessoa vibrar, pela utopia que a move e anima, pela compreensão da vida que essa pessoa vem construindo através da experiência pessoal, na convivência com seus semelhantes e com os outros seres, nas mística que essa pessoa define como base de sua definição individual e de sua orientação histórica.

Quanto mais conscientemente vive e age uma pessoa, quanto mais cultiva seus valores, seu ideal, sua mística, suas opções profundas, sua utopia, mais espiritualidade tem, mais profundo e mais rico é o seu interior.

A espiritualidade não é patrimônio exclusivo de pessoas especiais, profissionalmente religiosas, ou santos, nem sequer é privativa das pessoas que crêem. A espiritualidade é patrimônio de todos os seres humanos. Mais ainda: A espiritualidade é também uma realidade comunitária; é como a consciência e a motivação de um grupo, de uma comunidade. Cada comunidade tem sua cultura e cada cultura tem a sua espiritualidade.

Conclusão

Esta forma de ver a espiritualidade como entusiasmo interior e como motivações últimas de vida é a que permite se integrar dentre de um programa de desenvolvimento na cidade com motivações naturalmente civis. O objetivo definido pela dimensão espiritual do programa ESPERE busca contribuir para que os indivíduos e as organizações de bairros cultivem um capital espiritual e fortaleçam sua idéia de futuro, a visão de cidade e o entusiasmo para construir convivência e paz.

Neste esforço de convivência, os temas do Perdão e da Reconciliação têm um papel central e indispensável. Através do Perdão e da Reconciliação, as pessoas e as comunidades recuperam o espírito e a espiritualidade.





[1] COMBLIN, J. Antropologia cristiniana, Paulinas, Madrid 1985, pág. 264-270.

[2] Paul TILLICH, La dimensión não perdida, Desclée, Bilbao 1970, sobre la dimensión não antropológica de la “profundidade” y su significado religioso.